quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

O Botão de Pérola (2015)

O cineasta Patricio Guzmán observa as águas do Chile, onde foram jogados milhares de pessoas durante a ditadura. Ele faz uma triangulação entre a geografia (a condição insular do país), o passado colonial (com a morte e estupro de índios) e a ditadura de Pinochet.
Direção: Patricio Guzmán
Cinematografia: Katell Djian
Produtoras: Mediapro, Atacama Productions, France 3, Valdivia Film
Prêmios: Fénix Film Award for Best Documentary Cinematography, Platino Award for Best Documentary
Elenco: Patricio Guzmán, Raúl Zurita



               
povo da Patagônia



 Esse filme é um documentário com cara de poesia. A narrativa sobre a existência de povos primitivos é de tirar o chapéu. Esse documentário não se inicia com cara de quem defende uma ideologia. Pelo menos no início o filme trata de uma humanidade em seu estado mais puro. Sensivel e de instinto limpo, sem propósito, único. Mas, para desenvolver uma denúncia que é a intenção do filme, há de se abandonar a natureza pura. É preciso criar uma linguagem que possa declarar aos seus sobreviventes. Avisá-los dos perigos já inevitáveis. Ao "pé da letra"a narrativa chega até mesmo a se contradizer em sua construção poética. Um nativo, Jimy Boton, ficou assim conhecido por ser atraído a uma nau inglesa por causa de um botão cor de pérola. Os ingleses o levaram para aquele país, lhe educaram, lhe vestiram com as mais nobres peças de roupa. Mais tarde, Jimy Boton é trazido para sua antiga civilização e é nesse momento que aquela cultura começa a desmoronar. Jimy Boton perdera sua natureza. Nunca mais aquele nativo voltaria daquela civilização distante, foi dividido ao meio. Esse trecho pretende confrontar-se com o destino de milhares de cidadãos chileno, vítimas do golpe militar no Chile de Salvador Alhende. Dezenas de corpos foram jogados ao mar e, depois de anos as barras de ferros que foram presas aos corpos das vítimas para que eles permanecessem no fundo do oceano foram recolhidas. Foi encontrado um botão parecido com o de Jimy Boton encrostrado em uma das barras de ferro. Esse fato narrado no filme como movimento complementar pode apontar para uma perspectiva pragmática que nos remeteria a uma ressonância do ato da atração de Jimy Boton pelo botão. Indicar que por analogia, o vestir-se de uma ideologia comunista resultaria em um logro idêntico ao passado de Jimy Boton. Não se trata de um simples acontecimento em ambos os casos. Não há uma verossimelhança entre os fatos narrados, nem se quisermos que sejam denúncias. O que há é uma condensação da alma do narrador que abandona a natureza pura e parte para a estrutura de uma linguagem cada vez mais distante de uma solução. Isso é documentação. É também o reflexo de dois universos alheios um ao outro, que não se misturam. Eu achei agressivo ao espectador. Ou se declara a beleza da humanidade ou se denuncia suas arbitrariedades.



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